Na semana passada, a prestigiosa Universidade de Princeton tomou uma decisão que rompeu com uma tradição centenária. A instituição mantinha uma cultura que a distinguia da maioria dos estabelecimentos de ensino superior: professores não necessariamente precisavam estar em sala de aula fiscalizando alunos nas provas presenciais. Essa confiança era baseada em seu Código de Honra, escrito em 1893. Alunos se comprometem por escrito a não colar nos exames e a denunciar colegas que não cumprissem o combinado. Isso não impediu por completo as fraudes — nenhum sistema é capaz disso —, mas funcionou razoavelmente bem por lá até recentemente. Só que a realidade mudou. Com a proliferação do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, Princeton, mesmo mantendo seu Código de Honra, passou a recomendar que professores ou assistentes estejam presentes durante a aplicação dos exames.
Como tenho reiterado neste espaço, a IA generativa não é a primeira tecnologia a vir acompanhada de promessas de revolucionar a educação. Por essa régua, até agora, todas falharam em cumprir tal profecia. Mas não há dúvida que estamos diante de uma inovação com alto potencial disruptivo, o que nos obriga a repensar — de novo — sobre vários aspectos, desde rotinas básicas (como no exemplo citado de Princeton) até questões mais profundas. E a sensação até agora é de que, do Vale do Silício às áreas mais pobres, estamos ainda desnorteados com a velocidade das mudanças, diagnóstico que, diga-se de passagem, não se restringe só ao campo educacional.
A forma como avaliamos alunos desde a educação básica, por exemplo, merece reflexão. Nos primeiros anos do ensino fundamental até são comuns modelos que não se baseiam em testes aplicados aos alunos em sala de aula.
A partir do segundo ciclo do fundamental, porém, gradativamente vai se impondo a lógica de provas baseadas em conteúdos trabalhados anteriormente pelos professores, aplicadas sob supervisão adulta no mesmo momento e para todos os estudantes, com o objetivo principal de determinar quem será ou não aprovado ao final do processo.
Colar é um desvio ético que não deve ser minimizado, mas, se o que realmente conta é a média final que estará registrada no boletim, precisamos reconhecer que esse modelo é, para muitos, um incentivo à fraude. E mesmo colégios que se posicionam como inovadores têm pouca margem de manobra e acabam por se render a essa lógica, à medida que o estudante se aproxima da idade de fazer o Enem e vestibulares. Pouco importa se no dia seguinte da prova o jovem esquecerá tudo o que aprendeu, pois o objetivo final é ser aprovado.
Diagnosticar o problema é a parte mais fácil da equação. Migrar para uma outra cultura, em que avaliações são ponto de partida para nortear o trabalho pedagógico com o objetivo de garantir que todo estudante consiga evoluir em sua aprendizagem é uma afirmação elegante em teoria, mas muito desafiadora na prática.
Outro debate sempre espinhoso diz respeito ao currículo. Se novas tecnologias — antes mesmo das IAs generativas — são cada vez mais ágeis em entregar conteúdo e acelerar tarefas, quais seriam as habilidades e competências fundamentais a serem desenvolvidas pelos estudantes? Há muito que se fala, por exemplo, da necessidade de trocar amplitude por profundidade.
No entanto, quando colocamos na mesa quais conteúdos poderiam ser descartados para dar mais espaço ao aprofundamento, o consenso genérico (quando existente) se esvai. É preciso reconhecer que essas não são mesmo decisões fáceis. Nunca foram. Mas o atual momento demanda uma nova tentativa de encarar com coragem esses dilemas.
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Este artigo foi publicado originalmente no Jornal O Globo no dia 18/05/2026.




